A renomada escritora e ensaísta Siri Hustvedt concedeu uma entrevista profunda e reveladora para falar sobre Histórias de fantasma, seu segundo livro de memórias. A obra é dedicada aos mais de quarenta anos de intimidade e cumplicidade ao lado do célebre escritor estadunidense Paul Auster (1947–2024), além de detalhar os dois primeiros anos de luto enfrentados pela autora após a morte do marido, vítima de um tumor no pulmão.
Doutora em língua inglesa pela Universidade Columbia e vencedora do prêmio Princesa das Astúrias em 2019, Hustvedt construiu uma narrativa que mescla rigor cultural e científico — transitando entre a psicanálise, a neurologia e a oncologia — com reflexões existencialistas. O livro resgata documentos íntimos, como fotografias, bilhetes corriqueiros, cartas de amor e e-mails enviados a amigos durante o período de tratamento que a autora apelidou de “Cancerlândia”, além das últimas palavras escritas pelo autor de A trilogia de Nova York e Baumgartner para o neto Miles, nascido no início de 2024.
Os últimos anos de vida de Paul Auster foram marcados por uma sucessão avassaladora de eventos dramáticos. O autor enfrentou a trágica morte de seu primogênito, Daniel Auster, e um rigoroso tratamento contra o câncer, que durou quinze meses e incluiu sessões de radioterapia, quimioterapia e cirurgias. Apesar das adversidades, o casal manteve a proximidade artística e intelectual que marcou quatro décadas de convivência.
Durante a conversa, Hustvedt detalhou como utilizou diários pessoais para estruturar o novo livro, buscando uma espécie de ressurreição por meio da escrita diante da impossibilidade de trazer os mortos de volta. A autora também abordou os limites tênues entre a realidade e a ficção em suas obras e nas de seu falecido marido, explicando como memórias e experiências pessoais são reconfiguradas e traduzidas em formato literário.
Outro ponto central abordado foi a percepção da sincronicidade e da música do acaso, termo frequentemente utilizado por Auster para definir os mecanismos misteriosos que operam a realidade. A escritora relatou episódios em que sentiu a presença do marido e odores associados a ele após o seu falecimento, explicando o fenômeno sob a ótica da neurobiologia e da fenomenologia, descartando explicações estritamente espiritualistas, mas mantendo a humildade intelectual diante dos mistérios da mente humana.
Por fim, a ensaísta refletiu sobre o engajamento político e o posicionamento progressista de Auster ao longo dos anos, lamentando o avanço do fascismo e do autoritarismo no cenário político global atual, desde os Estados Unidos até a Europa. Hustvedt também recordou momentos alegres ao lado do escritor, como a passagem por Paraty durante a Flip de 2004, e confirmou que os manuscritos e rascunhos deixados por Auster serão disponibilizados para pesquisadores na Biblioteca Pública de Nova York, enquanto ela própria já avança na produção de um novo romance político.
Fonte original: Quatro Cinco Um