A onça, reconhecida como o maior felino do continente americano, carrega uma presença física e simbólica profunda que se estende por todo o território nacional. Essa grandiosidade está profundamente enraizada na linguagem cotidiana, nas manifestações artísticas urbanas, no vestuário — que frequentemente empresta suas características rosetas, únicas como impressões digitais —, além de habitar o folclore, os mitos, a vida espiritual, o cancioneiro popular e até mesmo o dinheiro em circulação.
Para dimensionar essa forte identidade cultural, o Brasil registra cerca de 352 formas distintas de designar a Panthera onca. Termos como jaguaretê, pintada, pixuna, sororoca, malhada e canguçuzinha-do-campo refletem a rica diversidade linguística do país em torno do animal, cuja popularidade do nome no Brasil difere do termo global 'jaguar', derivado do tupi ya’wara (fera), adotando a palavra 'onça', do latim luncea.
É nesse cenário de profunda conexão cultural que surge a obra literária escrita pela bióloga Nurit Bensusan, acompanhada pelas ilustrações expressivas de Mariana Zanetti. Longe de ser um guia técnico tradicional, o livro assume a forma de um anti-manual, propondo uma investigação curiosa e política sobre a inteireza da existência não apenas da onça, mas de toda a biodiversidade, incluindo árvores, insetos e microrganismos que compõem o planeta.
A publicação conduz o leitor por meio de questionamentos instigantes que se multiplicam e tecem uma reflexão sobre a relação humana com a diversidade ambiental. Questões como a ferocidade dos bichos e o impacto das ações humanas na teia da vida dialogam diretamente com cenários contemporâneos de degradação ambiental, desmatamento e os desafios de políticas públicas voltadas à preservação dos biomas.
Classificado como livro, manifesto e antimanual, o volume voltado ao público infantojuvenil, mas direcionado a todas as idades, convida à redescoberta do espírito selvagem e à valorização da pluralidade de seres. Ao propor que leitores vejam o mundo pelos olhos da onça, a obra estimula uma mudança de perspectiva indispensável para a convivência respeitosa e a proteção da rica biodiversidade do planeta.
Fonte original: Quatro Cinco Um