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A Ilusão das Tradwifes: Como o Romance 'Bons tempos' Tornou-se Vítima da Própria Superficialidade

A Ilusão das Tradwifes: Como o Romance 'Bons tempos' Tornou-se Vítima da Própria Superficialidade

Por Thais M Valente •

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Poucas palavras conseguem descrever tão bem nossa relação com outros usuários digitais como Schadenfreude, termo alemão para a sensação de prazer ao observar a dor ou a humilhação de alguém. Ela escancara uma verdade na era da hipervigilância digital: a satisfação inenarrável em assistir, da nossa tela, a outra pessoa se dando mal, enquanto vigiamos o nosso próprio comportamento para evitar ocupar esse lugar em algum momento. Talvez seja senso de justiça numa sociedade desigual, talvez apenas prazer, puro e simples — mas todo mundo já sorriu um pouco vendo alguém se dar mal, melhor ainda se for uma celebridade.

Quando li pela primeira vez a sinopse de Bons tempos (Yesteryear, no original), romance de estreia da podcaster estadunidense Caro Claire Burke, Schadenfreude surgiu na minha mente em letras garrafais. Afinal, é a história de uma influenciadora conservadora autodenominada tradwife, que defende os papéis de gênero “tradicionais”, e acorda um dia numa versão da própria casa e da própria família, mas no século 19.

As tradwifes começaram a aparecer nas redes no início dos anos 2020, em vídeos bem editados de mulheres bonitas cozinhando graciosamente. Começaram a ser exaltadas por personalidades de direita como símbolos do contra-ataque ao feminismo, prova de que uma mulher deseja mesmo é ficar em casa cuidando dos filhos enquanto o marido decide a vida por ela.

A principal influenciadora, Hannah Neeleman, acumulou milhões de seguidores em vídeos fazendo manteiga, pão e outros pratos do zero, cercada pelos filhos, enquanto o marido — filho de um bilionário — anda a cavalo pela fazenda da família em Utah. Neeleman foi a inspiração para a protagonista, quase como uma literatura de vingança. Ambas estudaram em universidades de elite, não se formaram para casar com homens ricos, tiveram um monte de filhos e, lógico, viraram garotas-propaganda de valores tradicionais.

Mas Bons tempos decepciona a ponto de falhar até em dar satisfação pela protagonista comendo o pão que o diabo amassou no século 19. E, convenhamos, nada mais prazeroso do que ver um influenciador digital pagando pelos próprios atos. O livro pinta um retrato preguiçoso e superficial do universo conservador, citando termos aqui e ali só para provar que alguma pesquisa foi feita. Não é falta de talento de Burke: o romance foi escrito com pressa. No caso, em três meses.

Ainda sem uma página escrita, o livro foi disputado por quinze editoras até o contrato ser assinado, em 2024, pela Penguin Random House. Após ler um rascunho, Anne Hathaway comprou os direitos para adaptá-lo a filme, que pretende protagonizar. Ou seja, a intenção nunca foi lançar um olhar crítico sobre o movimento tradwife, e sim fabricar um produto, a toque de caixa. Estava tudo pronto, faltando apenas o elemento mais importante: a história em si.

A narrativa alterna entre passado e presente, mostrando o processo da protagonista até se tornar garota-propaganda de valores conservadores. Mills é desagradável e uma narradora nada confiável. Criada com a irmã por uma mãe solteira, sua única conexão genuína é com os valores religiosos — sobretudo a performance perfeita de feminilidade e a recusa de qualquer atividade secular. Na igreja, porém, sente-se mais inteligente que os demais, e é assim que vai parar em Harvard como bolsista, onde se depara com herdeiros festejando sem parar. Ela se aliena dos colegas, pondo a convicção religiosa e a arrogância à frente de qualquer experiência.

Enquanto o perfil repercute no mundo todo, recebendo críticas de mulheres “amarguradas” que a influenciadora parece ao mesmo tempo desejar e odiar, ela trabalha para esconder a farsa: os “orgânicos” vendidos pela fazenda contêm pesticidas, o trabalho braçal é feito por imigrantes mal remunerados, os filhos só ficam com babás e o casal não se gosta.

É aí que Bons tempos tinha tudo para acertar o alvo. Personagens antipáticas obrigam o leitor a ficar incomodado, mas a construção destas é superficial, expondo só as tentativas da autora de agradar o público que esperava pela publicação. É nessa pressa que mora o maior pecado do romance. Existe um motivo por trás do sucesso repentino das tradwifes nas redes sociais que justifica uma mulher dizer que vale a pena abandonar a própria identidade em troca de uma casa bonita e segurança financeira.

Em Right-Wing Women (sem tradução no Brasil), a teórica feminista Andrea Dworkin explica que mulheres de direita fazem uma permuta: abdicam de si mesmas em troca de conforto e segurança num mundo exterior do qual nada de bom parece vir. E se apegam a ódios irracionais para não voltarem a fúria contra quem de fato as magoa: maridos, pais, irmãos e outros homens do próprio convívio.

Essa troca entre aniquilação feminina e segurança, no entanto, é frágil. A própria Hannah Neeleman disse numa entrevista que nunca se considerou uma tradwife, rejeitando o título que passou anos capitalizando — e, por um lado, tem razão: ela é uma empresária de sucesso, vendendo produtos da sua fazenda e publicidades milionárias.

Assim, Bons tempos vira exatamente aquilo que criticava: uma embalagem bonita, mas vazia por dentro. Talvez seja apropriado que um livro sobre uma influenciadora que vende uma vida perfeita tenha sido produzido do mesmo jeito: rápido, calculado, de olho nas vendas. Resta saber se na tela a história vai encontrar a coragem que lhe faltou nas páginas.

Jornalista com passagem pelo UOL e Vice, escreve quinzenalmente na newsletter Não Prometo Nada.


Fonte original: Quatro Cinco Um


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