A percepção de que existe algo além do óbvio é um privilégio raro. Enquanto grande parte das pessoas atravessa a existência sem questionamentos profundos — resumindo a jornada a estudos, compromissos financeiros e viagens previsíveis —, existem aquelas que simplesmente desconfiam da superfície das coisas. É o caso de uma jovem na faixa dos trinta anos, uma fase em que muitos ainda acreditam que uma boa fotografia junto à janela é capaz de revelar segredos sobre a própria alma.
Frequentadora de cafés onde lê ou apenas folheia volumes, ela atribui grande importância ao ato de sublinhar páginas. Para ela, um livro marcado por riscos a lápis funciona como a certidão de uma intimidade genuína. Seu objetivo literário é específico: quer ser cronista. A figura da escritora tradicional lhe parece exigir uma urgência e uma densidade dramática mais severas, enquanto a crônica permite o refúgio na rotina, como pedir comida por aplicativo ou assistir a uma série nórdica sobre conflitos cotidianos.
Em seus textos iniciais, ela se aventura por temas corriqueiros. Escreve sobre a chuva que cai implacável sobre São Paulo, o café que esfria na xícara, o peso melancólico dos domingos, plantas que murcham apesar dos cuidados, memórias afetivas da avó e frases misteriosas ouvidas de trabalhadores urbanos. O motor de sua escrita é a sensibilidade, o verbo sentir. Contudo, a literatura exige mais do que impressõespassageiras; ela cobra profundidade, a famosa descida simbólica ao inferno de onde se traz uma lição incontestável. Até o momento, as viagens da aspirante a escritora limitaram-se a destinos como Paraty, de onde traz registros fotográficos, embora a intuição de que há algo maior no ar permaneça intacta.
Essa percepção se manifesta na vertigem sentida ao entrar em livrarias diante de obras que não escreveu, ou ao observar uma mulher solitária em um ônibus, a janela iluminada de um prédio às três da manhã, um homem chorando discretamente em um aeroporto e a inocência de uma criança questionando sobre a finitude da vida. Por instantes, ela se aproxima da essência criativa, mas frequentemente se contenta em traduzir o momento em frases de efeito nas redes sociais, alimentando o pequeno impulso de ficção com legendas.
O caminho entre o desejo de escrever e a consolidação como autora é árduo. Como muitos iniciantes, ela confunde a vocação literária com a estética do ofício: compra cadernos de capa dura, frequenta oficinas literárias, fotografa pilhas de livros e menciona o próprio "processo criativo", que muitas vezes se resume a evitar o confronto direto com a página em branco. No entanto, a insistência do mundo bate à sua porta, exigindo coragem. O ato de escrever, afinal, pode começar justamente quando se abandona a pose de personagem, abre-se a porta e compreende-se que o mundo não nos deve uma narrativa pronta — cabe ao autor arrancá-la da realidade.
Fonte original: Jornal Rascunho