Recontar uma história tradicional já narrada por milhares de vozes e de diversas maneiras é uma tarefa desafiadora, comparável à missão de Momotaro — o famoso menino nascido de um pêssego que, ao lado de um cão, um macaco e um faisão, enfrenta terríveis onis. Tratando-se de uma das narrativas mais queridas do folclore japonês, encontrar originalidade parecia improvável, mas é exatamente isso o que acontece em A moda de Momotaro.
Assinado por Janaína Tokitaka, com ilustrações de Amy Maitland, o livro consegue o feito notável de não carregar apenas uma voz, mas uma polifonia que ecoa desde épocas ancestrais do outro lado do mundo, integrando-se à bagagem cultural trazida ao Brasil pelos primeiros imigrantes nipônicos. À primeira vista, a escolha estética pode parecer uma subversão: o enredo é apresentado no embalo rítmico de uma moda de viola caipira. Contudo, a autora mantém o espírito legítimo da lenda, respeitando suas origens enquanto aproxima a narrativa da identidade brasileira.
Um dos grandes méritos do texto é o equilíbrio cuidadoso entre dois universos culturais distintos. Termos tradicionais japoneses são preservados com precisão, como kibidango — evitando traduções menos expressivas como "bolinho de painço" —, obentô (traduzido com naturalidade como "marmita") e oni, mantido em vez de substitutos como "ogro" ou "demônio". A musicalidade intrínseca à lenda original, famosa nas canções entoadas por crianças japonesas, encontra eco natural no ritmo da viola caipira, mantendo a mesma alegria e ludicidade no texto brasileiro.
As ilustrações de Amy Maitland também injetam novos ares à clássica jornada. Uma sacada criativa da artista é a sutil alteração na premissa: subtrai-se a figura humana do menino, restando ao próprio pêssego vivenciar as aventuras heroicas. A personificação da fruta calçando geta (os tradicionais tamancos de madeira japoneses) introduz um elemento visual divertido, que se estende às representações criativas do cão, do macaco e do faisão em meio a paisagens oníricas.
O aspecto visual e o texto sucinto caminham lado a lado, criando uma narrativa rica em detalhes e atmosfera. Tokitaka explora a concisão para abrir espaço a silêncios narrativos que Maitland preenche com maestria por meio da paleta de cores. O início da obra é marcado por tons vibrantes de amarelo, verde e azul, que gradualmente se dissolvem em preto e branco à medida que a batalha contra os inimigos se intensifica, mergulhando os heróis em uma dramática cena de suspense visual. O retorno das cores coroa o triunfo da amizade e da coragem, provando que a parceria entre Janaína Tokitaka e Amy Maitland resultou em uma reinvenção que não apenas homenageia o clássico, mas o torna genuinamente brasileiro.
Fonte original: Quatro Cinco Um