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A Matriz e o Tempo: Uma Análise do Romance 'Xilocosmos' de Bernardo Carvalho

A Matriz e o Tempo: Uma Análise do Romance 'Xilocosmos' de Bernardo Carvalho

Por Redação •

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A obra literária de Bernardo Carvalho frequentemente revisita um motivo recorrente: o desaparecimento de uma figura central cujos rastros deixados no passado exigem de outra pessoa a tarefa de reconstrução narrativa. Em sucessos anteriores de sua carreira, essa dinâmica se fez presente de diferentes maneiras. Em Nove noites, um escritor busca desvendar a trajetória de Buell Quain valendo-se de correspondências e depoimentos. Em Mongólia, a busca de um diplomata mapeia o paradeiro de um fotógrafo sumido. O mesmo procedimento ecoa em O sol se põe em São Paulo, onde relatos alheios dão margem à escrita de uma história inédita para o narrador.

Em Xilocosmos, essa estrutura reaparece, expandindo-se para uma profunda travessia temporal. O enredo transita constantemente entre o ano de 1971 e a contemporaneidade, momento em que o protagonista revisita figuras e episódios de sua juventude, passadas mais de cinco décadas. Na porção temporal de 1971, o narrador, então com doze anos, vivencia uma rotina na zona sul carioca marcada por episódios peculiares de assaltos e pequenos conflitos cotidianos que moldam sua percepção do mundo ao seu redor.

O eixo central da narrativa ganha contornos mais nítidos no ambiente escolar. Um professor de matemática lança à turma um desafio conceitual na forma de uma equação: representar graficamente uma dimensão para além da compreensão imediata dos alunos. Enquanto Dulce, a única aluna negra da classe, responde ao estímulo com um mapa complexo de caminhos e encruzilhadas, o narrador percebe barreiras intransponíveis de entendimento entre os colegas. Pouco tempo depois, o misterioso desaparecimento de Dulce desencadeia uma rede de boatos infundados sobre um suposto furto, alimentados pela ignorância e pelo preconceito velado da instituição, como o apelido pejorativo atribuído à sua amiga Ana Maria.

Décadas mais tarde, o ressurgimento de Ana Maria na vida do narrador traz à tona fantasmas do passado e conecta a narrativa a novos personagens, como o filho adotivo dela, Carlinhos. Ao tentar mapear os passos de Carlinhos — que enfrentou barreiras raciais ao buscar interpretar Hamlet em uma escola de teatro na Alemanha —, o narrador confessa operar no campo da especulação, construindo elos e preenchendo lacunas sem provas materiais definitivas. Essa busca por conexões entre tempos desconexos espelha o antigo exercício do professor de matemática, transformando a investigação em um esforço contínuo para alcançar aquilo que permaneceu fora do alcance na juventude.

A tessitura do romance de Bernardo Carvalho dialoga com tradições literárias consolidadas, remetendo a clássicos como Onde andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu, onde a investigação de um desaparecimento também consome o narrador a ponto de implicá-lo diretamente nos fatos. Ao longo de Xilocosmos, a linha tênue entre registrar fatos e inventá-los esmaece. O uso de matrizes, serigrafias e sulcos na madeira serve como metáfora central para o próprio fazer literário: impressões que se repetem ao longo dos anos, permitindo ao leitor, assim como ao autor e ao narrador, aproximar cenas, testar hipóteses e imprimir novas formas a velhas memórias.


Fonte original: Quatro Cinco Um


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