Os primeiros escritos de Carolina Maria de Jesus nascem com a força irrevogável da denúncia social. A autora passou a documentar seu cotidiano em diários, narrativas que trazem à tona o contexto de extrema pobreza na favela e a vida dura que enfrentou desde a infância.
Por meio da escrita diarística, Carolina passou a analisar e investigar a própria existência em sua dimensão social. Além das memórias, a autora escreveu contos, crônicas, poemas e teria ainda deixado dois romances inéditos. Ela é a mente por trás de obras fundamentais como “Quarto de Despejo”, “Casa de Alvenaria” e “Pedaços de Fome”, entre outros.
Publicada em mais de 40 países e traduzida para 15 línguas, a obra da autora brasileira vem sendo constantemente (re)visitada por leitores e pesquisadores de diversas nacionalidades.
Em 2021, Carolina recebeu, em uma homenagem póstuma, o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Esse é um reconhecimento importante atribuído a personalidades eminentes, nacionais ou estrangeiras, que tenham se destacado singularmente por sua contribuição à cultura, à educação ou à humanidade.
Nascida no dia 14 de março de 1914, em Minas Gerais, Carolina era neta de escravos e filha de uma lavadeira analfabeta, frequentando a escola somente até o segundo ano do Ensino Fundamental. Em 1930, acompanhada da família, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou como lavradora e empregada doméstica.
Em 1948, mudou-se para a favela do Canindé. Nos anos seguintes, tornou-se mãe de três filhos. À época, trabalhava como catadora de papel e amava ler, devorando tudo o que encontrava pela frente, fossem livros, jornais ou revistas.
Em 1958, conheceu o jornalista Audálio Dantas, que a auxiliou na publicação de seus diários. Alguns textos foram publicados no jornal “Folha da Noite” e outros reunidos em seu livro de estreia, “Quarto de Despejo” (1960). Carolina faleceu em 1977, aos 62 anos, vítima de uma insuficiência respiratória.
Marcada por frases contundentes como “Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados” e “Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem”, sua trajetória reflete o peso e a coragem de sua escrita.
Em resposta a questionamentos sobre sua arte — como quando um sapateiro lhe perguntou se o livro era comunista —, ela consolidava sua visão: “Respondi que é realista. Ele disse-me que não é aconselhável escrever a realidade”.
O diário de Carolina Maria de Jesus deu origem a esta literatura que relata o cotidiano triste e cruel da vida na favela. A linguagem simples, mas contundente, comove o leitor pelo realismo e pelo olhar sensível na hora de contar o que viu, viveu e sentiu nos anos em que morou na comunidade do Canindé, em São Paulo, com três filhos.