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Entre Dois Mundos: Entenda o Conceito de 'Trânsfuga de Classe' Imortalizado por Annie Ernaux

Entre Dois Mundos: Entenda o Conceito de 'Trânsfuga de Classe' Imortalizado por Annie Ernaux

Por Thais M Valente

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Cruzar as barreiras sociais por meio da educação e do letramento cultural é uma jornada frequentemente acompanhada por um profundo sentimento de não pertencimento. O indivíduo atinge posições anteriormente inalcançáveis — como a universidade, empregos de prestígio e novos círculos conviviais —, mas continua se sentindo um estranho nesses espaços e, ao mesmo tempo, já não consegue se reconectar inteiramente com suas origens.

Essa vivência íntima e coletiva possui nome: trânsfuga de classe. A escritora francesa Annie Ernaux, laureada com o Prêmio Nobel de Literatura em 2022, abordou esse fenômeno com extrema precisão décadas antes de o termo se tornar pauta frequente nas redes sociais e no debate literário. Ao desenvolver a autosociobiografia, a autora deslocou o eixo da literatura mundial, tirando o foco das experiências burguesas para centralizar a vivência da classe trabalhadora.

O conceito descreve quem cresceu em ambientes marcados por restrições econômicas e atravessou a fronteira social. No entanto, a ascensão revela que a mudança não se limita ao aspecto financeiro, mas envolve o domínio de códigos invisíveis, como vocabulário, tom de voz e referências. O trânsfuga carrega a memória da injustiça e o medo da pobreza, vivendo no meio intelectual como um impostor. Para ascender, muitas vezes comete-se uma 'traição' cultural involuntária contra a própria família, gerando um isolamento duplo: os pais já não o reconhecem e os novos pares não compreendem sua origem, culminando na culpa de sentir vergonha de suas raízes.

Na obra Os Armários Vazios, essa dinâmica atinge seu ápice na interseção entre opressão de classe e de gênero vivida pela protagonista Denise Lessur. Na França dos anos 1960, enquanto mulheres abastadas podiam cruzar a fronteira para realizar procedimentos seguros na Suíça, as jovens de classes populares recorriam a abortos clandestinos. Na narrativa, a gravidez surge como a ameaça de um fracasso social, e o procedimento clandestino, embora brutal, torna-se um ato de fuga e recusa do destino predeterminado.

Ao transformar sua trajetória em obra, Annie Ernaux concretizou o objetivo registrado em seus diários pessoais: o de usar a literatura para "vingar a sua raça".


Fonte original: taglivros.com


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