“O livro permanece aberto vê / é minha vez de contar a história”. Com esses versos do poema “Ifigênia”, trecho do livro Também guardamos pedras aqui, a escritora Luiza Romão abriu caminho para se tornar a grande consagrada do Prêmio Jabuti 2022, levando a estatueta de Livro do Ano.
A cerimônia de anúncio dos contemplados na 64ª edição do evento ocorreu na noite de quinta-feira (24), no emblemático Theatro Municipal de São Paulo. Criada em 1958, a honraria é reconhecida como a mais tradicional e prestigiosa do segmento editorial brasileiro, servindo como chancela de excelência perante a comunidade leitora do país. Ao todo, foram premiadas 20 categorias distribuídas em quatro eixos centrais: Literatura, Não Ficção, Produção Editorial e Inovação.
No eixo dedicado à Literatura, os holofotes se voltaram para produções de grande relevância crítica e social. A obra A vestida, de Eliana Alves Cruz, sagrou-se campeã na categoria Contos. A prosa da autora carioca é marcada por intensa crítica social, pesquisa histórica rigorosa, ironia e forte ligação com a ancestralidade africana. Seus personagens, profundamente humanos e integrados ao seu próprio tempo, recusam a invisibilidade à qual as trajetórias negras frequentemente foram submetidas na história.
Já na categoria Romance Literário, o prêmio ficou com O som do rugido da onça, de Micheliny Verunschk. O livro reconstrói a narrativa histórica ao deslocar o foco da historiografia hegemônica para as crianças indígenas Iñe-e e Juri, retiradas à força de suas terras coloniais. A trama conecta o século XIX ao contexto contemporâneo por meio da personagem Josefa. O enredo resgata a expedição de 1817, quando os exploradores Spix e Martius desembarcaram no Brasil e, após três anos e 10 mil quilômetros percorridos, regressaram a Munique levando consigo os dois jovens indígenas, que faleceram pouco tempo depois da chegada à Europa.
Na categoria Poesia — e consagrado como Livro do Ano —, Também guardamos pedras aqui traz a marca lírica e combativa de Luiza Romão. As "pedras" da autora remetem menos ao dilema íntimo de Virginia Woolf e mais aos atos de resistência e autodefesa exercidos pelos palestinos em Sheikh Jarrah contra o neocolonialismo. O texto dialoga com a tradição poética de Drummond e João Cabral, além do engajamento presente em canções do Clã Nordestino, Nina Simone, Pete Seeger, Barbara Dane e Selda Bağcan, construindo um espaço de acolhimento sem abrir mão da contundência crítica.
Confira alguns dos vencedores em destaque:
- Contos (1º Lugar): A vestida: contos | Autor(a): Eliana Alves Cruz | Editora(s): Malê Editora
- Crônica / Literatura (1º Lugar): A lua na caixa d’água | Autor(a): Marcelo Moutinho | Editora(s): Malê Editora
- Histórias em Quadrinhos (1º Lugar): Escuta, formosa Márcia | Autor(a): Marcello Quintanilha | Editora(s): Veneta
- Infantil (1º Lugar): Sonhozzz | Autor(a): Silvana Tavano, Daniel Kondo | Editora(s): Salamandra